Idéias, Sonhos, Contos e Poesias


28/11/2009


Pindamonhangaba

 

 

          Pindamonhangaba... Desde criança essa palavra não me saía da cabeça. E eu a achava tão engraçada que ria dela sempre que lembrava. Tentava me conter, mas acabava por explodir numa sonora gargalhada onde quer que estivesse.
          E foi ali no meio daquela importante entrevista de emprego que ela surgiu novamente, do nada, e eu procurei me controlar.
          Enquanto me argüia sobre experiências anteriores, o gerente, um homem sério de cara sempre fechada, ora lia compassadamente as perguntas datilografadas na folha de papel-jornal à sua frente, ora fitava-me falando sobre a empresa e a responsabilidade de meu pretenso cargo. E, de repente, lembrei-me... Pindamonhangaba. Comecei a suar frio e me contorcer na cadeira como quem segura gases, aflito. Perguntou-me se estava sentindo alguma coisa, se desejava um copo d’água – “Não, obrigado” – e continuou a questionar-me sobre intenções salariais e a explanar muitas outras coisas as quais eu não mais conseguia compreender, pois Pindamonhangaba estava lentamente surgindo letra após letra em sua careca reluzente bem à minha frente. Folguei a gola do paletó, ansioso.
          A necessidade do emprego seria mais forte que Pindamonhangaba? Naquela tarde quente de segunda-feira, eu iria descobrir.
          Em um dado momento, comecei a brigar comigo mesmo. No meu íntimo ralhava severo com aquele humor infantil ao mesmo tempo em que procurava inutilmente afastar Pindamonhangaba de meu subconsciente. “Pindamonhangaba”. O que havia nela de tão engraçado assim? Era uma paroxitonazinha sem graça alguma – “isso mesmo! Pode dar certo humilha-la gramaticalmente!”. Uma reles paroxítona terminada em “a” e, portanto, nem sequer acentuada. Além disso, trata-se de uma cidade bonita – bom! Um pensamento trivial: uma cidade, simplesmente! – onde pessoas honestas vivem e trabalham. Coisa que eu também precisava fazer: trabalhar. E este método simples teria funcionado para afastar qualquer outro pensamento se não fosse o fato de que eu sabia perfeitamente o que estava acontecendo... Eu apenas tentava mascarar a realidade: Pindamonhangaba estava ali, dentro de minha cabeça, dando piruetas, ora vestida de bailarina com sapatos de palhaço, ora correndo com sua barriguinha saliente pra frente e escorregando numa casca de banana. Com todas as minhas forças olhei furioso pra ela, e qual não foi minha surpresa, vi-a parar ao lado do gerente, com um impagável chapéu coco, cueca samba-canção e suspensórios; e como se não bastasse o inusitado da cena, soltou-me um indefectível e comprido “Piiiiiiiiiiiiin-da-mo-nhan-ga-ba”... com um sorrisinho faltando-lhe um dente. Comecei a tossir. A mão no rosto repreendia os traidores músculos da face que começavam a entregar-se àquela sabotadora de entrevistas.
          - O senhor tem certeza que está bem?
          - Sim, sem dúvida – disse limpando a garganta.
          Maldita! – Pensei eu, esganando-me psicologicamente. Aquilo teria que parar! – Quem? Eu ou a entrevista? – e ainda por cima era cínica!
          - Pois, bem, senhor. Agora preencha esta ficha pondo nome e endereço e depois entregue-a na sala ao lado.
          Dei graças a Deus pelo fim de toda aquela tortura. Ao sair dali minha vitória sobre as idiotices de Pindamonhangaaaaaaaaaaaaba – oh, Jesus amado! Falta pouco! – estaria assegurada. Deixaria meu inquisidor de terno irrepreensível para trás e esqueceria aqueles terríveis momentos de agonia. E o melhor: aquele senhor austero que teve meu futuro nas mãos também me esqueceria. Mas, antes de dispensar-me pegou minha ficha para dar seu carimbo e assinatura. Olhando novamente meus dados, disse fitando-me sobre os óculos:
          - Interessante... O senhor é Paulista. Eu também sou de São Paulo.
          - Que bom, senhor! De que lugar?
          - Pindamonhangaba. Conhece?
          - ...

Escrito por Magno às 13h48
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O Dia do Brasinha

 

 

- Ih! Lá vem a turma do Brasinha! É melhor a gente correr logo pra casa!
- Não, bicho! É melhor a gente se levantar e sair andando depressa, disfarçando, pra ele não pensar que a gente tá com medo e correr atrás da gente!
- Brasinha? Quem é o Brasinha?
- É aquele baixinho do meio! Ele deve ter uns 15 anos! Ele pede dinheiro ou pão pra gente e se a gente não der, ele bate na gente ou quebra a vidraça da nossa casa e sai correndo!

 

 

 

...

 



          Quando tinha onze anos fiz minha primeira baladeira. Era de cabo de goiabeira a forquilha e lembro bem que era perfeita; fazia um “v” de tamanho e forma ideais e pude comprovar isso em cada tiro que dei com ela. O par de tiras de borracha que a compunha tinha a tensão exata para equilibrá-la e fornecer-lhe força espantosa para arremesso dos pequenos bólidos de pedra que sempre escolhia com rigor: pequenos e esféricos, o mais próximo possível de uma bila. Nos quase dois anos que a tive, minha mira com ela tornou-se impressionante. Por vezes, surpreendi-me acertando insetos no ar: besouros-do-cão, abelhas, mané-magos e, certa vez, uma mosca varejeira. Cheguei a mirar num calango do qual só se via a cabeça na quina do muro e acertei. Impecável.
          Em Fortaleza, perto de minha casa no bairro Aeroporto havia cinco pequenas lagoas interligadas por um único e esguio riacho. A maior delas era a Lagoa da Chicuta, onde se juntavam vários meninos de minha idade para pescar, tomar banho ou caçar galinhas-d’água com suas baladeiras. Havia muito, minha turma não banhava mais ali. A água tinha se tornado preta de tanta sujeira que vinha dos esgotos das casas que se erguiam cada vez mais e em maior número ao redor dela. Mas, ainda teimávamos com nossas mães em pescar na Chicuta.
          Neste dia, chegamos cedo e fomos logo procurando, cada um, seu lugar na beira. Pegamos alguns guppies, iscamos e jogamos nossas linhas na água. Eu fui o único que trouxe, além de caniço, linha e anzol, baladeira e bornal. Achei um lugar na beira em que havia uma espécie de banquinho de terra que pensei ser perfeito para ficar. Acomodei-me lá e aguardei. Minutos depois percebi que não tinha escolhido um bom lugar, enquanto outros garotos já exclamavam “uias” e “opas”, nada beliscava minha isca; minha pequena bóia de isopor era a única que não se mexia. Frustrado, resolvi deixar o caniço fincado no chão na espera, enquanto caçava calangos ao redor, entre os pés de carrapateira que cresciam por toda a região onde estávamos.
          Meus amigos pescavam e conversavam distraídos quando de repente foram surpreendidos por uma chuva de pedras que vinha da outra margem da lagoa. Era o Brasinha e sua turma que se esgueiraram pelo mato até defronte ao local onde pescávamos. Todos saíram correndo deixando para trás suas tralhas e eu, nervoso, observava tudo, protegido pelas largas folhas das carrapateiras. Lembro-me perfeitamente do momento em que distingui o Brasinha entre os moleques que atiravam e gritavam xingamentos.  Pareceu que se fomou um eixo entre eu e o Brasinha e o tempo girava rápido em torno dele. Minha mão direita tateava dentro do bornal em busca da melhor pedra, a mais redonda, e eu me concentrava em não perder o Brasinha de vista. Os moleques se aproximavam cada vez mais da margem atirando na direção dos meus amigos que corriam. Achei a pedra precisa, o Brasinha estufava o peito atirando, coloquei-a no couro de minha baladeira, o Brasinha gritava dando ordens aos moleques, estiquei-a até a tensão exata, o Brasinha fazia cara feia enquanto atirava, coloquei-o no centro do “v” de minha baladeira, o Brasinha levantou a cabeça olhando meus amigos correndo ao longe, respirei fundo. O tempo desacelerou. O Brasinha também. Soltei um pouco do ar inspirado. Prendi a respiração a meio-pulmão. Liberei o tiro e vi a pedra chegar ao seu destino fazendo um barulho surdo. Um ponto branco surgiu na testa do Brasinha e sua cabeça foi jogada para trás. O sangue veio em seguida com a queda de lado e o grito terrível.
          Meu Deus! – corri apavorado.
          Cheguei em casa, minutos depois de ziguezaguear pelos quarteirões dos arredores. Joguei a baladeira em cima do meu guarda-roupa e corri para o banheiro. Não conseguia tirar toda aquela cena da cabeça. Meu coração doía de remorso – o barulho, o ponto branco, o sangue, o grito.

 

...


          Nunca mais o Brasinha nos aterrorizou ou sequer apareceu em nossa rua.
          Soube muito tempo depois que virara mecânico, fora morar no interior e havia casado.

          Graças a Deus.

Escrito por Magno às 12h25
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10/11/2008


Ao Meu Amigo Valdo França

Conheci-o adulto responsável, profissional competente. Tempos depois, a convivência com ele mostrou-me um rapaz cheio de energia, com grandes planos para o futuro, um jovem de boa índole, educado e esforçado. Quando me aproximei ainda mais de Valdo, descobri também um menino de coração adorável, divertido e inteligente.
Acho que na minha caminhada, tive o mesmo privilégio de poucos que o conheceram desde a infância, mas, curiosamente, num percurso inverso. Acredito que essas coisas fazem parte do “ser amigo de alguém”.
Agora, ele está com Deus.
Apesar de todo o choque de perder sua companhia tão cedo, só posso dizer: obrigado.
Obrigado, Valdo, pela sua amizade.


Com todo o carinho.
De seu amigo,
Magno Soares

Escrito por Magno às 01h07
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02/07/2007


"Músicas Que Eu Gostaria de Plagiar" - 2

ANDRÉA DÓREA

<Renato Russo e Eu no sábado passado às 02:34 am> 

 

Às vezes parecia

Que de tanto acreditar

Em tudo que achávamos tão certo

Teríamos o mundo inteiro

E até um pouco mais

Faríamos floresta do deserto

E diamantes de pedaços de vidro

 

Mas, percebo agora

Que o teu sorriso

Vem diferente

Quase parecendo te ferir

 

Não queria te ver assim

Quero a tua força

Como era antes

O que tens é só teu

E de nada vale fugir

E não sentir mais nada

 

Às vezes parecia

Que era só improvisar

E o mundo então seria um livro aberto

Até chegar o dia em que tentamos ter demais

Vendendo fácil o que não tinha preço

 

Eu sei, é tudo sem sentido

Quero ter alguém com quem conversar

Alguém que depois

Não use o que eu disse

Contra mim

 

Nada mais vai me ferir

É que eu já me acostumei

Com a estrada errada que eu segui

E com a minha própria lei

 

Tenho o que ficou

E tenho sorte até demais

Como sei que tens também.

Escrito por Magno às 11h32
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Mais uma da série "Músicas Que Eu Gostaria de Plagiar"...

JURA SECRETA

Composição: Sueli Costa e Abel Silva

 

Só uma coisa me entristece

O beijo de amor que não roubei

A jura secreta que não fiz

A briga de amor que não causei

Nada do que posso me alucina

Tanto quanto o que não fiz

Nada do que eu quero me suprime

Do que o por não saber ainda não quis

 

Só uma palavra me devora

Aquela que meu coração não diz

Só o que me cega

O que me faz infeliz

É o brilho do olhar

Que não sofri.

Escrito por Magno às 11h29
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07/12/2006


Love Song - The Cure

E pensar que eu adoro essa música!

Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm home again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm whole again

Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm young again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm fun again

Chorus:
However far away
I will always love you
However long I stay
I will always love you
Whatever words I say
I will always love you
I will always love you

Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm free again
Whenever I'm alone with you
You make me feel like I'm clean again

Falso, Falso, Falso...

Escrito por Magno às 00h19
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A Paixão

Que barato...

A paixão.

Esta, pensei que não mais existisse.

Mas. quem disse?

Esse coração fingido!

Falso, Falso, Falso!

Escrito por Magno às 00h14
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Falso, Falso, Falso

"Nosso relacionamento começou sem esperança,

como alguém que sabe que vai morrer.."

 ...

"Esperança... ...a não ser aquela que existe 'naturalmente'..."

 

"... Por isso não vou fingir..."

"... só me restarão os livros pra me consolarem..."

"Minha indiferença é o muro de concreto que construo pra me proteger"

                                                                                    < L o r n a >

Falso, Falso, Falso...

Escrito por Magno às 00h11
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23/09/2006


As Primeiras Atividades

Acordei por volta de cinco horas da manhã com a galera do primeiro ano toda se levantando e correndo pra se arrumar. Fiz o mesmo, é claro. E segui a turma ao mesmo pátio de formatura pro rancho onde ficamos em forma até às 6:20! Depois do café voltei para a 3ª, pois não sabia o quê fazer. Quando estava entrando na CIA encontrei o Fonseca, um outro aluno do CMF que havia chegado um dia antes de mim. Foi muito legal ver o Fonzy por lá e ficamos felizes por nos encontrarmos. Não havíamos sido grandes amigos no Colégio Militar de Fortaleza, mas creio que ali estávamos nos sentindo tão perdidos que nos unimos bastante naquele momento. Saímos de lá e passeamos pela Escola conversando pra caramba. Eu acho que nós não sabíamos o quanto a gente tinha em comum. Ele era um cara gente fina pra caramba e eu passei dois dos meus quatro anos de CMF ao lado dele, na mesma sala de aula, sem conhecê-lo.

Lá pelas onze horas da manhã...

- Pô, Fonzy! E aí que é que a gente vai fazer agora?

- Cara, me disseram que a gente tem que se apresentar para um tal de Major Dantas no CA!

- Beleza! Eu vou contigo pra ver o que é que dá!

- Então tá! Mas tem que levar nossa ficha modelo 18 pra ele arquivar e dizer onde nós ficaremos.

- Cara, a gente tem que ficar junto! Vamos pedir pra ficar aqui na 3ª CIA mesmo, tá legal?

- Jóia! Eu ouvi dizer que aqui é mais tranqüilo, que a 3ª é a CIA menos trotista da EsPCEx.

- Então tá decidido!

Ao chegarmos no “tal CA” que descobri se tratar de “Corpo de Alunos” conhecemos o “tal Major Dantas”, um senhor de baixa estatura, negro, cabelos grisalhos e muito tranqüilo ao falar. Nós nos apresentamos formalmente como ex-alunos do Colégio Militar e ele nos perguntou sobre a viagem, sobre o Ceará e sobre outras banalidades, enfim, nos tratou muito bem. E também nos disse que o Fonzy ficaria na 3ª e eu iria para a 2ª CIA. Nós no entreolhamos e dissemos:

- Major, eu e o Fonseca gostaríamos de ficar na mesma Companhia, pode ser? É que nós já combinamos, sabe?

- É. Nós conversamos e achamos melhor, entende?

O Major mudou completamente:

- Vocês estão brincando comigo? Quem decide alguma coisa por aqui é o Exército! Não vocês! Vão já para as companhias que eu lhes disse! Agora desapareçam da minha frente!

Eu olhei para o Fonseca assustado e disse baixinho: “- Égua!”.

- Sim, senhor! - Dissemos quase uníssonos. Demos meia-volta e saímos quase correndo. Ficamos arrasados, mas fazer o quê?

Fomos orientados a procurar nossos Tenentes, comandantes de pelotão, em nossas respectivas CIA’s para uma entrevista. Ao entrar na 3ª CIA, o Fonseca, encontrou o Ten ?, que mais tarde ficou conhecido como “Super-Ten” porque sempre procurava proteger seus comandados do primeiro ano. Ele levou o Fonzy ao PC dele para ser entrevistado. Eu fiquei esperando-o pra me despedir, mas demorou tanto a tal entrevista que desisti e fui pegar as minhas coisas. Arrumei a mala, desolado, e fui pra aquela droga de 2ª CIA que, mal sabia eu,... iria me orgulhar por toda minha vida.

Escrito por Magno às 00h04
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14/09/2006


Ok.

Estou postando a página anterior do livro para que entendam o que aconteceu antes do primeiro dia.

Pessoal, a EsPCEx era um pesadelo para um novato (ou "bicho") em 1981, mas até que eu me orgulho de ter passado por tudo e não ter desistido. Well...

Nesse livro vou contar tudo que presenciei de 1981 a 84 sem trocar nomes ou maquiar situações.

Aguardem, por favor.

Abrs.

Escrito por Magno às 23h58
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A Primeira Noite na EsPCEx

 

Fiquei olhando para o teto muito alto, as paredes com grandes janelas de vidro, plaquetas de acrílico com números que definiam setores ali também, pessoas que entravam e saiam e alguns caras que se arrastavam pelo chão e outros que eram derrubados das camas para pagarem flexões... Caramba! Tinha gente levando trote! Fiquei olhando tudo aquilo quando chegou um sujeito do meu lado. A pouca luz que vinha da escadaria dava pra perceber que ele era um daqueles caras feios, meio nórdicos, parecendo um alemão da roça. Ele se aproximou da cama ao lado, segurou-a pela lateral e levantou com violência, derrubando o cara que estava dormindo!

- Levanta, monstro! Toma posição de sentido, seu bosta!

O cara se levantou rapidamente ainda tonto e ficou em sentido, quando então levou um tapa nas mãos!

- Cola a porra da mão na coxa, animal! Cola a mão na coxa!

O sujeito ainda pôs a mão entre um dos braços e o corpo do cara que estava em sentido e deu-lhe uma bordoada por dentro dos braços que fez a mão subir até a altura dos ombros! E continuava a dar ordens num grito contido entre os dentes:

- Já falei pra colar a mão na coxa, caralho!!! E não chora, animal! Não chora! Tu vai aprender a marchar é agora! Não quero saber de tu ficar fazendo merda em forma! Ordinário-marche!

O cara rompeu marcha e foi em frente marchando.

- Deixa de ser mongolóide, porra! Tu vai só marcar passo, vai ficar marchando no lugar, seu merda! E calado que já deu o Silêncio, seu merda! Volta aqui!

O cara voltou e fez tudo de novo, enquanto o outro ia lhe dando novos comandos:

- Direita-volver! Esquerda-volver!

É claro que, depois de muitos outros comandos, um principiante como ele era iria começar a errar e foi no que deu.

- Seu burro! Tu vai aprender, animal! De novo! Você vai aprender! Tu não é mongolóide!

Lá pelas tantas o cara do primeiro ano começou realmente a chorar baixinho. E o sujeito ficou ainda mais transtornado e começou a dizer:

- Agora vai chorar? Tu é bicha? Pode chorar! Aqui não tem papaizinho nem mamãezinha pra proteger filhinho, não! Aqui é diferente, seu cagalhão! Seu bosta!

Então pela primeira vez o cara falou, ainda chorando:

- Eu vou sair daqui! Eu vou contar isso pro meu pai e pedir pra sair! Eu vou sair daqui!

- Pode contar pro caralho de asa! Pode ir embora! Se não agüenta ser homem, vai embora, seu animal!

Nesse instante vieram outros caras e chamaram o sujeito pra conversar. Não deu pra ouvir o que eles falavam e o sujeito mau voltou.

- Tu é uma vergonha pro EB! Seu cagalhão!

Escrito por Magno às 23h46
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A Primeira Noite Na EsPCEx (Continuação)

A sessão de trote continuou por mais alguns minutos quando então apareceu um cara de moletom que parecia um armário! E disse:

- Aê, Fulano! Larga esse cara, deixa ele dormir. Pega outro bicho agora, ou vai dormir também que é melhor, rapaz!

- Não, Salem! Esse cara tem que aprender que aqui não é casinha de mãe, não! Aqui é o EB!

- Tudo bem, cara! Eu sei! Mas ele já tá cansado! E ele é teu irmão, cara! Deixa o cara, por favor! Tu quer que ele desista e vá embora? Pô, vai dormir cara!

“PUTZ!!! UM É IRMÃO DO OUTRO!!! E ESTÁ PASSANDO POR ISSO!!! IMAGINA EU QUE NÃO TENHO IRMÃO AQUI!!! QUEM É QUE VAI TER PENA DE MIM??!!” – Pensei eu, desesperado.

E depois de muito insistir, o aluno Salem e mais outros dois convenceram o sujeito mau a ir embora, não sem antes dele dizer ao bicho que amanhã teria mais.

Eu estava apavorado! Os meus olhos de tão esbugalhados devem ter brilhado e chamado a atenção do “Poderoso Salem” (era assim que todos o conheciam) que se voltou para mim. Ele foi se aproximando e eu fui sorrindo ou contorcendo meu rosto de medo, não sei bem.

- Bicho... você tá olhando o que?

Comecei a gaguejar baixinho e antes que eu pudesse balbuciar alguma coisa, ele disse:

- Não! Não responda! Aliás, não faça nada! Fique quieto!

E eu fui obedecendo, paralisado.

- Feche os olhos.

E eu: plim! Fechei os olhos.

- Não veja nada. Não se mexa. Não respire. Não ouça. Não pense. Bicho, não pense. Bicho, você está pensando! Não pense!

Eu juro que fui obedecendo tudo à risca! Tentei com todas as minhas forças não escutar. Juro que tentei não pensar, deixar minha mente em branco! Eu tentava não pensar, mesmo!!!

- Muito bom, animal. Fique quieto no seu poleiro até amanhã. Até lá, se eu imaginar que tu se mexeu, tu tá fudido.

Acordei no outro dia ainda com a respiração contida.

 

Escrito por Magno às 23h44
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13/09/2006


Trechos do Livro Sobre a EsPCEx

Alguns amigos me pediram que eu colocasse pelo menos alguns trechos do que estou escrevendo sobre a Prep aqui no Blog.

Sendo assim escolhi a esmo uns pedaços que coubessem no espaço que o Blog oferece e mandei ver.

Segue um pequeno fragmento do livro que já chega a quatrocentas e poucas páginas.

Abrs.

Escrito por Magno às 02h00
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Domingo, O Primeiro Dia

O dia amanheceu e eu fui abrindo os olhos devagar para sentir o ambiente. Alguns alunos passeavam pelo corredor entre as camas e outros literalmente corriam. Foi fácil saber quem era veterano e quem era do primeiro ano...

O cara que se fudeu na noite anterior, não estava mais na cama. Mas, na cama vizinha à dele, um sujeito foi acordando devagar e virou-se com o rosto para o lado em que eu estava. Dessa vez era realmente uma cara conhecida. Tadeu, um colega do CMF que tinha ido dias antes de mim para Prep!

- Tadeu?!

- Magno?!

- E aí, cara? Como é que estão as coisas? Cara, ontem um cara se lascou aqui nessa cama! Você viu?

- Não, cara! Só ouvi, mas tive medo de me virar pra olhar! Vamos sair daqui? Vamos conversar fora da Escola, se não a gente vai acabar sendo pego por um veterano! Bora! A gente vai conversando!

E saímos correndo. Aliás, “bicho” só andava correndo nos primeiros meses de Escola!

Saímos à paisana e fomos tomar café numa padaria perto dali. Tadeu ia me mostrando os caminhos próximos à Escola que ele já havia aprendido a percorrer nos finais de semana quando sumia da Prep para não levar trote. Conheci o Bar do Português que não era uma boa opção pra se esconder, pois era em frente à Prep, mas que tinha tudo que um aluno poderia precisar como escova e pasta de dentes, sabonetes, biscoitos Piraquê que eu passei a adorar, refrigerante Vanucci de guaraná, cadernos, canetas e muitas outras coisas. O “bar” do Português era na verdade um pequeno mercado de propriedade de um português e sua família.

Conheci ainda o Castelo ou “Marco de Triangulação Geodésica da Cidade” que é uma grande torre circular situada no centro da praça principal do Jardim Chapadão. Alguns barzinhos e trailers do bairro e parti para o centro de Campinas. Tomamos um ônibus em frente à Escola e lá fui eu, absorvendo tudo ao meu redor. Meu Deus! - pensei - é um mundo muito diferente do qual vivia antes. Fortaleza não tinha aquele frescor do ar de Campinas. A cidade tinha outras cores. As plantas pelo chão eram outras que não as de onde eu vinha. As ruas eram muito sinuosas acompanhando as curvas de nível da geografia local. O céu era de um azul perfeito, sem nuvens e de um clima excelente. Os pássaros eram diferentes: os bem-te-vis eram menores que os de Fortaleza e os pombos maiores e em maior número no centro da cidade. Conheci a Avenida Francisco Glicério, e uma praça no centro que parecia ser dividida pela avenida. Descemos na praça e fomos até uma lanchonete comer um misto-quente com Coca-Cola que estava uma delícia. Andamos ali pelo centro um bom tempo. Tempo suficiente para saber onde ficavam alguns cinemas por perto: o Cine Jequitibás, o Regente e outros que não recordo agora. E conheci um dos maiores points da galera da Prep: o Sucão. Putz! O melhor suco de abacaxi com leite e caramelo enfeitando o copo que já tomei em toda minha vida! Aliás, a melhor limonada suíça, o melhor sanduíche de filé, o melhor Mini-Nhac, o melhor Peru à Califórnia e a melhor Amendovita que pode existir na história da gastronomia! Caramba! Como eu comi bem naquele lugar!

No dia seguinte, fizemos o mesmo percurso e demos uma chegada até o Shopping. Meu primeiro dia de Shopping Center na vida! Sei que todas essas coisas são muito comuns atualmente e vocês podem até achar engraçado, eu também acho hoje em dia. Mas, poucos terão o prazer de vivenciar em suas vidas tão fortes emoções como as que nós tivemos naqueles tempos. Pensem nisso...

Depois desse tour, resolvemos voltar pra Escola. Eu e o Tadeu havíamos nos arranchado, ou seja, colocado os nossos nomes numa lista para o rancho no jantar de domingo e não poderíamos faltar, pois seríamos punidos caso isso acontecesse. Achei uma idéia meio idiota, mas depois descobri que o Tadeu estava certo... O jantar de domingo no quartel era simplesmente a melhor refeição que se poderia fazer na Escola. Havia sopa, sanduíche, vitamina, sobremesas deliciosas, tudo para atrair o aluno mais cedo de casa. Sem dúvida, uma ótima idéia. Porém, achei que estava muito cedo ainda para voltarmos, pois o dia estava claro e parecia ser ainda umas cinco da tarde. Quando olhei para o relógio, era quase sete da noite! A noite começava mais tarde em Campinas! Em Fortaleza para começar escurecer bastava estar próximo das cinco e trinta da tarde! Fiquei impressionado com aquele tempo tão diferente.

Escrito por Magno às 01h54
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Domingo, O Primeiro Dia (Continuação)

Chegamos ao quartel e entramos em forma no pátio próximo à pérgula Tiradentes. Os veteranos à frente, depois os calouros e por último, nós os “bichos”.

Marchamos até a frente do rancho e fizemos “esquerda-volver” para entrarmos no refeitório. E toda vez que os alunos entravam, os Adjuntos, alunos de serviços, gritavam: “- Não corram! Devagar! Sem correr!”. É claro que, praticamente, todos corriam. Alguns disfarçavam com passadas largas ridículas e os cinco ou seis alunos educados de cada turma desfilavam soberbos. Nos dois primeiros anos, eu também corri, mas depois, como por encanto, a postura da Escola mudou. No meu terceiro ano parece que tomamos consciência do quanto isso era inadmissível na conduta de um aluno-militar e isso se deveu a nova safra de oficiais que foram chegando ano a ano, creio.

Dentro do rancho* ficávamos em posição de sentido imóveis esperando o Auxiliar de Oficial de Dia apresentar o refeitório para o Oficial de Dia ou à maior autoridade presente e só depois disso é que podíamos sentar quando autorizados.

Após sentarmos, os gritos recomeçavam. Só que agora eram os veteranos e calouros roubando as sobremesas ou a paciência dos bichos. O trote não escolhia hora nem local naquela época. Jantávamos às pressas não só para fugir do trote como para ter o que comer realmente. Havia casos de alunos que não conseguiam comer por causa dos trotes. Os mais antigos não respeitavam nem as refeições. Era pressão a todo instante. Saíamos correndo do rancho para nos escondermos no bosque à frente da Escola e ficávamos lá até a hora do silêncio. Quando ouvíamos o toque saímos correndo de volta pra companhia e procurávamos trocar de roupa o mais rápido possível pra dormir, mas era quase impossível fugir dos trotes. Enquanto eu trocava de roupa, veio um veterano e, sempre com raiva, mandou-me limpar suas barretas e castelinho. Dei a maior sorte, pois ele depois disso me levou para o alojamento, obrigou-me a rastejar acompanhando-o até sua cama e depois, simplesmente, mandou-me sumir dali. Eu já havia colocado meu pijama e saí correndo.

Corri feito um louco pra só depois me tocar, pra onde é que eu tava indo mesmo? Ah! Eu estava indo pra aquele beliche! Só que quando cheguei lá ele já estava ocupado. O dono era um aluno do primeiro ano que nem cheguei a perturbar, pois sabia que eu havia dormido lá antes somente pelo fim-de-semana no qual ele estava viajando, provavelmente. “Que é que eu vou fazer?” – pensei. Andei pelo alojamento estudando os caras que passavam parecendo ser os donos do mundo e percebi que os veteranos andavam coçando o saco e de cabeça erguida. Para não levar trote, eu fui fazendo o mesmo, disfarçando, e cheguei até um cara fardado de plantão que vi ser do primeiro ano também e disse:

- Ei, cara! Cheguei sexta à noite e não me deram cama! Onde é que eu vou dormir?

- Sei lá, cara! Eu sou bicho, também! Pergunta pro Cabo de Dia que é calouro! - Nessa hora pensei: - como uma pessoa podia se auto-intitular “bicho”?! Seria falta de amor próprio ou lavagem cerebral?

- Ok, cara! Me apresenta esse tal Cabo de Dia, por favor.

O plantão me levou até o Cabo de Dia que já estava dormindo e ao acordá-lo levamos o maior esporro; ele teve que se apresentar pro cara e ao contar a minha história, eu ouvi as famosas frases que se tornariam nossas companheiras por toda a vida de caserna: “Foda-se! Te vira!”.

E lá fui eu, perdido e apavorado pelo corredor do alojamento, mas... coçando o saco e de cabeça erguida...

No início do corredor vi uma cama vazia e deitei esperando dar a sorte de ninguém aparecer. Naquela noite, dei sorte...

Escrito por Magno às 01h53
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