Pindamonhangaba... Desde criança essa palavra não me saía da cabeça. E eu a achava tão engraçada que ria dela sempre que lembrava. Tentava me conter, mas acabava por explodir numa sonora gargalhada onde quer que estivesse.
E foi ali no meio daquela importante entrevista de emprego que ela surgiu novamente, do nada, e eu procurei me controlar.
Enquanto me argüia sobre experiências anteriores, o gerente, um homem sério de cara sempre fechada, ora lia compassadamente as perguntas datilografadas na folha de papel-jornal à sua frente, ora fitava-me falando sobre a empresa e a responsabilidade de meu pretenso cargo. E, de repente, lembrei-me... Pindamonhangaba. Comecei a suar frio e me contorcer na cadeira como quem segura gases, aflito. Perguntou-me se estava sentindo alguma coisa, se desejava um copo d’água – “Não, obrigado” – e continuou a questionar-me sobre intenções salariais e a explanar muitas outras coisas as quais eu não mais conseguia compreender, pois Pindamonhangaba estava lentamente surgindo letra após letra em sua careca reluzente bem à minha frente. Folguei a gola do paletó, ansioso.
A necessidade do emprego seria mais forte que Pindamonhangaba? Naquela tarde quente de segunda-feira, eu iria descobrir.
Em um dado momento, comecei a brigar comigo mesmo. No meu íntimo ralhava severo com aquele humor infantil ao mesmo tempo em que procurava inutilmente afastar Pindamonhangaba de meu subconsciente. “Pindamonhangaba”. O que havia nela de tão engraçado assim? Era uma paroxitonazinha sem graça alguma – “isso mesmo! Pode dar certo humilha-la gramaticalmente!”. Uma reles paroxítona terminada em “a” e, portanto, nem sequer acentuada. Além disso, trata-se de uma cidade bonita – bom! Um pensamento trivial: uma cidade, simplesmente! – onde pessoas honestas vivem e trabalham. Coisa que eu também precisava fazer: trabalhar. E este método simples teria funcionado para afastar qualquer outro pensamento se não fosse o fato de que eu sabia perfeitamente o que estava acontecendo... Eu apenas tentava mascarar a realidade: Pindamonhangaba estava ali, dentro de minha cabeça, dando piruetas, ora vestida de bailarina com sapatos de palhaço, ora correndo com sua barriguinha saliente pra frente e escorregando numa casca de banana. Com todas as minhas forças olhei furioso pra ela, e qual não foi minha surpresa, vi-a parar ao lado do gerente, com um impagável chapéu coco, cueca samba-canção e suspensórios; e como se não bastasse o inusitado da cena, soltou-me um indefectível e comprido “Piiiiiiiiiiiiin-da-mo-nhan-ga-ba”... com um sorrisinho faltando-lhe um dente. Comecei a tossir. A mão no rosto repreendia os traidores músculos da face que começavam a entregar-se àquela sabotadora de entrevistas.
- O senhor tem certeza que está bem?
- Sim, sem dúvida – disse limpando a garganta.
Maldita! – Pensei eu, esganando-me psicologicamente. Aquilo teria que parar! – Quem? Eu ou a entrevista? – e ainda por cima era cínica!
- Pois, bem, senhor. Agora preencha esta ficha pondo nome e endereço e depois entregue-a na sala ao lado.
Dei graças a Deus pelo fim de toda aquela tortura. Ao sair dali minha vitória sobre as idiotices de Pindamonhangaaaaaaaaaaaaba – oh, Jesus amado! Falta pouco! – estaria assegurada. Deixaria meu inquisidor de terno irrepreensível para trás e esqueceria aqueles terríveis momentos de agonia. E o melhor: aquele senhor austero que teve meu futuro nas mãos também me esqueceria. Mas, antes de dispensar-me pegou minha ficha para dar seu carimbo e assinatura. Olhando novamente meus dados, disse fitando-me sobre os óculos:
- Interessante... O senhor é Paulista. Eu também sou de São Paulo.
- Que bom, senhor! De que lugar?
- Pindamonhangaba. Conhece?
- ...




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